Tipografia no melhor filme de 2025 (até agora)
Letreiros, cartazes e blues
Se você ainda não assistiu a Sinners (2025), filme dirigido por Ryan Coogler, me prometa que vai corrigir esse erro assim que terminar de ler este texto. É não só um dos melhores, mas também um dos filmes mais originais do ano.
Sinners é tão peculiar que nem dá para passar uma sinopse sem soltar um spoiler gigantesco. Mas acho que consigo dar um resumão sem estragar sua experiência: a história se passa na cidade de Clarksdale, no estado do Mississippi (EUA), em 1932. Dois irmãos voltam à cidade natal depois de passarem anos trabalhando em Chicago com a gangue de Al Capone.
Depois de ganharem muito dinheiro (ao contrário dos seus conterrâneos, que em grande parte trabalham na colheita de algodão), eles decidem abrir um bar de blues para a população negra da cidade. Para isso, compram a propriedade de um membro da Ku Klux Klan, e esse novo estabelecimento acaba desencadeando um conflito entre a população negra e a branca de Clarksdale.
Ufa! Quase que contei a parte principal, mas vou deixar para você descobrir por conta própria (o filme está disponível na HBO Max).
Por muito tempo, fui um detrator dos filmes de época, seja lá por que motivo. Hoje eu entendo que isso sequer faz sentido: afinal, não é como se “filmes de época” sejam um gênero. Pelo contrário, atualmente adoro assistir a obras ambientadas no passado. O principal motivo para superar essa resistência foi perceber que essa é uma das melhores oportunidades para conhecer o design de outra época.
E o melhor: quanto mais distante no passado, maior a chance de as letras nos cenários terem sido desenhadas à mão (caso as equipes de design de produção e direção de arte sejam fiéis ao período retratado, é claro), o que é sempre bom.
A cartela de título da abertura é bem interessante: as letras são talhadas em madeira, mas, por algum motivo, parecem estar em alto-relevo, o que é um pouco estranho do ponto de vista lógico, mas ficou bonito! Esse lettering, aliás, é bem mais legal do que o do cartaz.
Infelizmente, o filme não passa muito tempo no comércio local, que é justamente a ambientação com mais material gráfico. Eu adoro o logotipo da mercearia: três estilos diferentes funcionando bem em conjunto. Neste frame, dá para ver que ele foi realmente desenhado à mão, porque há pequenas diferenças entre o desenho em uma porta de vidro e na outra. Só acho um pouquinho esquisito que a palavra “Delta” seja abaulada na parte inferior, mas a linha de baixo não siga essa mesma curva.
Eu pagaria para ver essas embalagens todas em detalhe.
Mesmo escondidas pelos carros, ainda dá para ver a diversidade tipográfica das vitrines: tamanhos, estilos e técnicas bem diferentes de uma para outra.
A dona da mercearia também é a pintora de letras da cidade, e Smoke, personagem de Michael B. Jordan, quer que ela faça o letreiro do seu clube de blues, o Club Juke (que, aliás, vai ser inaugurado nesse mesmo dia).
Esse é o melhor trabalho da vida dela? Provavelmente não, mas temos que dar um desconto pelo prazo apertado. De todo jeito, esse letreiro tem tudo a ver com o enredo. Depois de assistir ao filme, você vai entender como ele ajuda a contar a história.
Esse é um dos poucos frames do filme em que é possível ver a placa inteira. Aqui o mais interessante não é nem o letreiro conhecer esse tipo de estabelecimento, sobre os quais eu confesso que era totalmente ignorante. Esse é um juke joint, um ambiente que reunia bebida, comida, música, dança e jogos para o lazer de populações negras dos Estados Unidos. Os juke joints são muito associados à música blues, que também é uma parte imporantíssima do enredo de Sinners.
Grace Chow – dona de mercearia, letrista e agora atendente do Club Juke – ainda conseguiu tempo para desenhar o menu do lugar. Infelizmente, não dá para ler direito o que está escrito no canto esquerdo da tela.
Por sorte, uma cena deletada do filme mostra como a placa do menu estava ficando – e não era nada mal! Adorei que três das quatro letras em “Menu” estão conectadas, e que o “E” flutua por cima da ligadura entre o “M” e o “N”.
Uma cena do filme se passa nos anos 1990 e mostra alguns cartazes de blues ótimos. Não tem como não amar essa composição de várias fontes se complementando e vibrando na página.
Para o espectador que ainda tinha dúvida se a cena realmente se passa nos anos 1990, aqui vai a prova definitiva: um anel com letras gigantes de ouro e um “S” em formato de cifrão, só para eliminar qualquer suspeita.
O design de produção de Sinners é assinado por Hannah Beachler, vencedora do Oscar pelo seu trabalho em Pantera Negra.




















Muito boa a análise, eu assisti o filme, realmente muito bom. Reparei na tipografia apenas agora vendo seu post.
Um filmaço que fica ainda melhor quando a devida atenção é dada à tipografia. Obrigado pelo texto, Valter.